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Humanos,
estranhos primatas. Andamos
sobre duas pernas, possuímos cérebros enormes e colonizamos cada canto
da Terra. Antropólogos e biólogos procuraram sempre entender como a
nossa raça diferenciou-se tão profundamente do modelo primata. Foram
desenvolvidos, ao longo dos anos, todos os tipos de hipóteses, visando
explicar cada uma dessas particularidades. Um conjunto de evidências,
porém, indica que essas idiossincrasias mistas de humanidade têm, na
realidade, uma linha em comum: elas são, basicamente, o resultado da
seleção natural, atuando para maximizar a qualidade dietética e a
eficiência na obtenção de alimentos. Mudanças na oferta de alimentos
parecem ter influenciado fortemente nossos ancestrais hominídeos.
Assim, em um sentido evolutivo, somos o que comemos.
Conseqüentemente, o que comemos é ainda uma outra forma pela qual nos
diferenciamos de nosso parente primata. Populações de humanos
contemporâneos pelo mundo afora, adotam dietas mais calóricas e
nutritivas que aquelas de nossos primos, os grandes macacos. Então,
quando e como os hábitos alimentares de nossos ancestrais divergiram
dos hábitos de outros primatas? Além disso, quanto os humanos modernos
se distanciaram do padrão alimentar ancestral?
O interesse científico na evolução das necessidades nutricionais
humanas tem uma longa história. Investigações relevantes começaram a
ganhar espaço a partir de 1985, quando S. Boyd Eaton e Melvin J. Konner,
da Emory University, publicaram um artigo no New England Journal of
Medicine intitulado "Nutrição Paleolítica". Eles argumentam
que a prevalência de muitas doenças crônicas nas sociedades modernas
- entre elas obesidade, hipertensão, doenças coronarianas e diabetes -
seriam o resultado de uma incompatibilidade entre padrões dietéticos
modernos e o tipo de dieta que nossa espécie desenvolveu para se
alimentar como caçadores-coletores pré-históricos.
Desde então, a compreensão da evolução das necessidades nutricionais
humanas tem avançado consideravelmente - graças, em parte, às análises
comparativas entre populações de humanos vivendo tradicionalmente e
outros primatas -, emergindo daí um retrato com mais nuances. Sabemos,
agora, que os humanos evoluíram não para subsistirem com uma dieta
paleolítica única, mas para desfrutarem de um padrão alimentar
diversificado.
Para se compreender o papel da alimentação na evolução humana,
devemos nos lembrar de que a procura pelo alimento, seu consumo e,
finalmente, como ele é usado para processos biológicos são, todos,
aspectos críticos da ecologia de um organismo. A energia dinâmica
entre organismos e seus ambientes, ou seja, a energia despendida
comparada à energia adquirida, tem conseqüências adaptativas
importantes para a sobrevivência e reprodução. Esses dois componentes
da aptidão darwiniana refletem-se na forma como estimamos o estoque de
energia de um animal. A energia de manutenção é o que mantém um
animal vivo. A energia produtiva está associada à concepção e
manutenção da prole para a próxima geração. Para mamíferos, isso
deve cobrir as demandas das mães durante a gravidez e lactação.
O tipo de ambiente que uma criatura ocupa irá influenciar a distribuição
de energia entre esses componentes, em que condições mais duras
representam, obviamente, maiores dificuldades. No entanto, o objetivo de
todos os organismos é o mesmo: assegurar a reprodução, visando
garantir, a longo prazo, o sucesso das espécies. Portanto, ao
observarmos a forma como os animais se deslocam para obter a energia
alimentar, podemos compreender melhor como a seleção natural produz a
mudança evolutiva.
Tornando-se
bípedes
SEM EXCEÇÃO, os primatas não-humanos deslocam-se habitualmente sobre
os quatro membros quando estão no chão. Os cientistas geralmente
assumem que o último ancestral comum dos humanos e dos chimpanzés
(nosso parente vivo mais próximo) também era um quadrúpede.
Desconhecemos quando, exatamente, o último ancestral comum viveu. Mas
indicações claras de bipedalismo - a característica que distinguiu os
antigos humanos dos outros macacos - são evidentes nas espécies mais
antigas conhecidas do australopitecus, que viveu na África por volta de
4 milhões de anos atrás. Idéias sobre a evolução do bipedalismo são
comuns na literatura paleoantropológica.
C. Owen Lovejoy, da Kent State University, propôs, em 1981, que a
locomoção sobre as duas pernas liberou os braços para carregar crianças
e objetos. Recentemente, Kevin D. Hunt, da Indiana University, sugeriu
que o bipedalismo emergiu como uma postura de alimentação, por ter
permitido o acesso a alimentos que antes estavam fora de alcance. Peter
Wheeler, da John Moores University, Liver- pool, acrescentou que, ao se
erguerem, os antigos humanos puderam regular melhor a temperatura
corporal, expondo menos o corpo ao calor abrasador africano.
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RESUMO
/ Dieta e Evolução Humana |
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As características que mais distinguem os humanos de
outros primatas são, certamente, os resultados da seleção
natural, agindo no melhoramento da qualidade da alimentação
humana, e a eficiência com que nossos ancestrais obtiveram os
alimentos. Alguns cientistas sugeriram que muitos dos problemas
de saúde enfrentados pelas sociedades modernas seriam conseqüências
de uma discrepância entre o que ingerimos e o que nossos
antepassados comeram.
Estudos entre populações que vivem tradicionalmente apontam
que os humanos modernos estão aptos a suprir suas necessidades
nutricionais usando uma ampla variedade de estratégias.
Adquirimos flexibilidade alimentar. A preocupação com a saúde
no mundo industrial, em que alimentos calóricos concentrados
estão facilmente disponíveis, não se originam de desvios de
uma dieta específica, mas de um desequilíbrio entre a energia
que consumimos e a que despendemos. |
A lista continua.
Uma série de fatores provavelmente influenciou esse tipo de locomoção.
Minha própria pesquisa, conduzida em colaboração com minha esposa, Márcia
L. Robertson, sugere que o bipedalismo desenvolveu-se em nossos
ancestrais, pelo menos em parte, por ser menos dispendioso
energeticamente que o deslocamento sobre quatro membros. Nossas análises
dos custos de energia do movimento em animais demonstraram que, no
geral, a maior demanda depende do peso do animal e da velocidade com que
ele se desloca. O mais surpreendente no movimento bipedal humano é que
ele é notadamente mais econômico que o deslocamento quadrupedal em
velocidade de marcha.
A evolução maior dos primeiros hominídeos ocorreu em pastos e espaços
de terra mais abertos, onde a sustentação é mais difícil. Sem dúvida,
os caçadores-coletores humanos modernos que vivem nesses ambientes, e
que nos oferecem o melhor modelo disponível dos padrões de subsistência
dos humanos primitivos, freqüentemente se deslocam 12 km por dia em
busca de alimentos.
Quanto aos hominídeos que viveram entre 5 milhões e 1,8 milhão de
anos atrás, durante o Plioceno, a mudança climática estimulou essa
revolução morfológica. À medida que o continente africano foi se
tornando mais árido, florestas deram lugar a pastos, deixando os
recursos alimentares distribuídos mais irregularmente.
O bipedalismo, nesse contexto, pode ser visto como uma das primeiras
estratégias na evolução nutricional humana, um padrão de movimento
que teria reduzido substancialmente o número de calorias despendidas na
coleta de alimentos.
| O
que é extraordinário em nosso cérebro grande, sob uma
perspectiva nutricional, é o quanto de energia ele consome-
aproximadamente 16 vezes mais que um tecido muscular por
unidade de peso. Porém, apesar de os humanos apresentarem,
quanto ao peso corporal, cérebros maiores que os dos outros
primatas (três vezes maior que o esperado), as necessidades
totais de energia em repouso do corpo humano não são maiores
que a de qualquer outro mamífero do mesmo porte. Usamos uma
grande parte de nossa quota diária de energia para alimentar
nossos cérebros vorazes. Na verdade, o metabolismo de um cérebro
em repouso ultrapassa de, 20 a 25%, as necessidades de energia
de um humano adulto - bem mais que os 8 a 10% observados em
primatas não - humanos, e que os 3 a 5% em outros mamíferos. |
 |
| OS
CÉREBROS FICARAM MAIORES – e cada vez mais, ao
longo do tempo, energeticamente exigentes. O cérebro
humano moderno responde por 10 a 12% da demanda de
energia de um corpo em repouso, comparada ao cérebro
do australopiteco |
|
Baseando-nos nas estimativas de tamanho corporal de hominídeos
compiladas por Henry M. McHenry, da University of California, em
Davis, Robertson e eu estimamos a proporção das necessidades de
energia em repouso que poderiam ser necessárias para alimentar os cérebros
de nossos antigos ancestrais. Um australopiteco típico, pesando entre
35 e 40 kg, com um cérebro de 450 cm3, teria reservado cerca de 11%
de sua energia em repouso para o cérebro. Enquanto um H. erectus,
pesando entre 55 e 60 kg e com um cérebro de cerca de 850 cm3, teria
reservado cerca de 16% de sua energia em repouso - ou seja, cerca de
250 das 1.500 kcal diárias - para este órgão.
Como teria evoluído esse cérebro tão energeticamente dispendioso?
Uma teoria, desenvolvida por Dean Falk, da State University of New
York, Albany, sustenta que o bipedalismo permitiu aos hominídeos
resfriar o sangue cranial e, conseqüentemente, liberar o cérebro
sensível do calor de temperaturas agressivas que haviam colocado em
cheque o seu tamanho. Suspeito que vários fatores estiveram em jogo,
mas a expansão do cérebro quase que certamente não teria ocorrido
se os hominídeos não tivessem adotado uma dieta suficientemente rica
em calorias e nutrientes, para suportar os custos associados.

Estudos
comparativos em animais vivos sustentam essa afirmação. Além de todos
os primatas, espécies com cérebros maiores ingerem alimentos mais
ricos; os humanos são um exemplo extremo dessa correlação, ostentando
o maior tamanho relativo de cérebro e a dieta mais variada. Conforme as
análises recentes de Loren Cordain, da Colorado State University, os caçadores-coletores
contemporâneos obtêm, em média, 40 a 60% de energia da carne, do
leite e de outros produtos de origem animal.
Chimpanzés modernos, em comparação, obtêm somente entre 5 e 7% de
suas calorias provenientes dessas fontes. Alimentos de origem animal
contêm bem mais calorias e nutrientes que a maioria dos alimentos
vegetais. Por exemplo, 100 g de carne geram acima de 200 kcal. A mesma
quantidade de frutas libera entre 50 e 100 kcal. Uma porção comparável
de verduras produz somente entre 10 e 20 kcal. Faz sentido, então, que,
para o antigo Homo, adquirir mais matéria cinzenta significou procurar
alimentos energeticamente mais densos.
Os fósseis, também, indicam que a melhoria na qualidade dietética
acompanhou o crescimento evolutivo do cérebro. Todos os australopitecos
apresentavam características esqueléticas e dentais estruturadas para
processar alimentos vegetais duros e de baixa qualidade. O
australopiteco mais antigo e robusto - um ramo da outra ponta da árvore
genealógica humana, que viveu lado a lado com membros de nosso próprio
gênero - teve adaptações especialmente pronunciadas para triturar
alimentos vegetais fibrosos, in- cluindo faces maciças em forma de
prato, mandíbulas fortemente estruturadas; cristas sagitais, no alto do
crânio, para a fixação de potentes músculos mastigatórios; e dentes
molares enormes e fortemente esmaltados. (Isto não significa que os
austrolopitecos nunca comiam carne. Eles certamente ingeriam este
alimento, oca- sionalmente, tal como os chimpanzés de hoje.) Mas,
membros mais antigos do gênero Homo, descendentes dos graciosos
australopitecos, possuíam faces e molares menores, mandíbulas mais
delicadas, e não apresentavam cristas sagitais - apesar de serem bem
maiores, em termos de porte corporal total, que seus predecessores. Em
conjunto, essas estruturas sugerem que o Homo ancestral consumia menos
matéria vegetal e mais alimentação animal.
| O
Uso do Fogo |
|
A
INGESTÃO DE MAIS ALIMENTOS DE ORIGEM ANIMAL é uma
forma de aumentar a densidade calórica e nutricional, uma mudança
que parece ter sido crítica na evolução da raça humana. Mas
poderiam nossos antepassados ter melhorado a qualidade alimentar
de outra forma? Richard Wrangham, da Harvard University, e
colegas recentemente pesquisaram a importância do cozimento na
evolução humana. Eles demonstraram que cozinhar não só faz
com que os vegetais fiquem mais macios e fáceis de se mastigar,
como aumenta substancialmente o conteúdo energético disponível,
particularmente em tubérculos feculosos como a batata e a
mandioca. Quando crus, as féculas não são imediatamente
quebradas pelas enzimas do corpo humano. Quando aquecidos, porém,
esses carboidratos complexos tornam-se mais digestíveis e,
portanto, liberam mais calorias.
Os pesquisadores propuseram que o Homo erectus foi,
provavelmente, o primeiro hominídeo a usar o fogo para cozinhar
há, talvez, 1,8 milhão de anos. |
|
|
| O
COZIMENTO DE VEGETAIS, especialmente tubérculos,
permitiu a expansão do cérebro, argumentam Richard
Wrangham, da Harvard University, e colaboradores |
|
Eles
sustentam que aquele cozido antigo de vegetais (especialmente
tubérculos) permitiu à espécie desenvolver dentes pequenos e
cérebros maiores que seus antecessores.
Além disso, as calorias extras permitiram ao H. erectus começar
a caçar - uma atividade energeticamente dispendiosa - com maior
freqüência.
Sob uma perspectiva energética, essa é uma linha
suficientemente lógica de raciocínio. O que fica difícil de
aceitar nessa hipótese é a evidência arqueológica que a
equipe de Wrangham utiliza para defendê-la. Os autores citam sítios
do leste africano, Koobi Fora e Chesowanja, datados em torno de
1,6 e 1,4 milhão de anos, respectivamente, para indicar o
controle do fogo pelo H. erectus. Esses locais, realmente,
mostram evidências de fogueiras, mas se hominídeos foram os
responsáveis por essas fogueiras é um assunto a ser debatido.
A mais antiga e inequívoca manifestação do uso do fogo -
fornos de pedra e ossos de animais queimados em sítios na
Europa - datam somente de cerca de 200 mil anos.
O cozimento foi claramente uma inovação que melhorou
substancialmente a qualidade da alimentação humana. Mas ainda
continua incerto quando essa prática apareceu. - W. R. L. |
Quanto ao que
empurrou o Homo para uma qualidade dietética maior, necessária para o
crescimento cerebral, a mudança ambiental parece ter sido, mais uma
vez, o ponto de mutação evolucionário. A crescente aridez da paisagem
africana limitou a quantidade e variedade de alimentos vegetais comestíveis,
disponíveis aos hominídeos. Aqueles na mesma linha que deu origem aos
robustos australopitecos enfrentaram morfologicamente esse problema,
desenvolvendo especificidades anatômicas que permitiram a subsistência
com alimentos de mastigação mais difícil, porém com maior
disponibilidade. O Homo percorreu outro caminho. A disseminação de
pastos também resultou em um aumento na abundância relativa de mamíferos
de pasto, como o antílope e a gazela, criando oportunidades para os
hominídeos capazes de explorá-los.
O H. erectus o fez, desenvolvendo a primeira economia caça-e-coleta, em
que animais de caça eram uma parte significativa da dieta e os recursos
eram compartilhados entre os membros dos grupos de suprimento. Sinais
dessa revolução comportamental são visíveis nos registros arqueológicos,
que apontam um aumento de carcaças de animais em sítios de hominídeos
durante esse período, junto com evidências de que as presas eram
abatidas com utilização de utensílios de pedra.
Essas mudanças na dieta e comportamento de coleta não tornaram nossos
ancestrais exclusivamente carnívoros. Mas, a adição de pequenas porções
de comida animal ao cardápio, combinada com a divisão dos recursos que
é peculiar aos grupos de caça e coleta, teria significantemente
aumentado a qualidade e estabilidade das dietas dos hominídeos. Uma
melhor qualidade dietética, por si só, não explica por que os cérebros
dos hominídeos cresceram, mas parece ter desempenhado um papel crítico
na eclosão daquela mudança. Após um grande estímulo inicial no
crescimento do cérebro, a dieta e a expansão desse órgão
provavelmente interagiram em sinergia; cérebros maiores produziram
comportamento social mais complexo, o que conduziu a outras estratégias
em táticas de suprimento e a uma melhor alimentação que, por sua vez,
fomentou a evolução adicional do cérebro.
Um
banquete itinerante
A EVOLUÇÃO DO H. ERECTUS na África, 1,8 milhão de anos atrás,
marcou a terceira virada na evolução humana: o movimento inicial dos
hominídeos para fora da África. Até recentemente, a localização e
as idades dos sítios fósseis conhecidos sugeriam que os primeiros Homo
permaneceram sedentários por poucas centenas de milhares de anos antes
de se aventurarem a espalhar-se pelo resto do Velho Mundo.
Estudos
antigos indicaram que o aperfeiçoamento da tecnologia de
ferramentas, cerca de 1,4 milhão de anos atrás - ou seja, o
advento do machado de mão acheliano -, permitiu aos hominídeos
deixar a África. Porém, o geocronologista Carl Swisher III, da
Rutgers University, e colegas têm demonstrado que os primeiros
sítios do H. erectus fora da África, situados na Indonésia e
na República da Geórgia, datam de 1,8 milhão e 1,7 milhão de
anos atrás, respectivamente. Parece que o surgimento do H.
erectus e sua disseminação fora da África foram quase que
simultâneos.
O ímpeto por trás dessa nova maneira de errar pelo mundo,
novamente, parece ter sido o alimento. O que um animal come é o
que define a área que ele demanda para sobreviver. Animais carnívoros
geralmente necessitam de muito mais território que os herbívoros
de porte compatível, pois têm menos calorias totais disponíveis
por unidade de área.Sendo o H. erectus mais encorpado e cada
vez mais dependente de dieta animal, provavelmente precisaria de
uma gleba maior que os australopitecos, menores e mais
vegetarianos. Utilizando dados de primatas contemporâneos e de
humanos caçadores-coletores como guia, Robertson, Susan Antón,
da Rutgers University, e eu calculamos que a estrutura corporal
maior do H. erectus, combinada com o aumento moderado de consumo
de carne, demandaria de 8 a 10 vezes mais território se
comparado ao espaço requerido pelo tardio australopiteco -
suficiente para explicar a abrupta expansão de espécies fora
da África. Ainda não sabemos exatamente a que distância, para
além do continente, esta mudança teria levado o H. erectus,
mas eles podem ter sido motivados e guiados a essas terras
distantes por rebanhos de animais migratórios.
Ao mudarem para latitudes nórdicas, os humanos encontraram
novos desafios alimentares. Os neandertais, que viveram durante
as últimas eras de gelo na Europa, estiveram entre os primeiros
humanos a habitar a região ártica, e eles, quase que
certamente, teriam necessitado de uma oferta calórica maior
para viver sob aquelas circunstâncias. Pistas de quais teriam
sido essas demandas de energia são fornecidas por dados de
populações humanas tradicionais que habitam hoje as regiões
árticas. As populações siberianas de criadores de rena,
conhecidas como evenki - que estudei com Peter Katzmarzyk, da
Queen's University, Ontário, e Victoria A. Galloway, da
University of Toronto, ambas no Canadá - e as populações de
inuits (esquimós) do Canadá Ártico apresentam índices de
metabolismo em repouso 15% acima do observado em pessoas de
porte similar vivendo em ambientes temperados. |
| Caçadores
Neandertais |
PARA
RECONSTITUIR o que os primeiros humanos
comeram, pesquisadores têm, tradicionalmente, estudado
sinais característicos em dentes fossilizados e crânios,
restos arqueológicos de atividades relacionadas à
alimentação, e às dietas de humanos e macacos vivos.
Mas, cada vez mais, os investigadores estão extraindo
uma outra fonte de dados; a composição química de fósseis
de ossos. Essa abordagem tem permitido descobertas
especialmente intrigantes com relação aos neandertais.
Michael Richards, atualmente na University of Bradford,
Inglaterra, e colegas examinaram, recentemente, isótopos
de carbono (13C) e nitrogênio (15N) em ossos de
neandertais de 29 mil anos da Caverna Vindija, Croácia.
As proporções relativas desses isótopos na parte protéica
do osso humano, conhecida como colágeno, refletem
diretamente a quantidade de proteína da dieta do indivíduo.
Assim, pela comparação isotópica das
"assinaturas" nos ossos dos neandertais com a
de outros animais vivendo no mesmo ambiente, os autores
puderam determinar se a massa protéica obtida pelos
neandertais era proveniente de vegetais ou animais. As
análises demonstram que os neandertais de Vindija
apresentavam níveis de 15N comparáveis àqueles vistos
em carnívoros do norte, como as raposas e os lobos,
indicando que eles obtiveram quase toda sua proteína
dietética de alimentos de origem animal. Um trabalho
anterior sugeriu que a ineficiência no suprimento pode
ter sido um fator do subseqüente fim dos neandertais.
Mas Richard e colaboradores argumentam que, para
consumir tanto alimento de origem animal, como eles
aparentemente o fizeram, os neandertais devem ter sido
caçadores exímios. Essas descobertas são parte de um
corpo crescente de literatura, sugerindo que o
comportamento de subsistência dos neandertais era mais
complexo que o previamente imaginado (ver "Who Were
the Neandertals?" de Kate Wong; SCIENTIFIC AMERICAN,
Abril 2000). - W. R. L. |
 |
AS
REFEIÇÕES NEANDERTAIS consistiam
principalmente em carne, de acordo com análises
químicas de ossos |
|
|
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O
ÊXODO AFRICANO começou tão logo o H. erectus se
desenvolveu, por volta de 1,8 milhão de anos, em
parte, provavelmente, porque ele precisava de um espaço
maior que seus predecessores de menor porte. |
|
As
atividades energeticamente mais dispendiosas associadas à vida
em um clima nórdico elevaram a demanda calórica. Na verdade,
enquanto um homem americano pesando 73 kg e levando uma vida
urbana necessita de cerca de 2.600 kg por dia, um diminuto homem
evenki pesando 57 kg, necessita de mais de 3 mil kcal/dia para
se sustentar. Usando essas populações nórdicas modernas como
referência, Mark Sorensen, da Northwestern University, e eu
estimamos que os neandertais, provavelmente, teriam necessitado
de cerca de 4 mil kcal/dia para sobreviver. Por terem sido
capazes de preencher essas demandas, e pelo longo tempo que o
fizeram, muito sobre suas habilidades como coletores é revelado
(ver box). |
Dilemas
Modernos
ASSIM COMO AS PRESSÕES para melhorar a qualidade alimentar
influenciaram a evolução dos primeiros humanos, também esses fatores
desempenharam um papel crucial nas expansões mais recentes do tamanho
populacional. Inovações como cozimento, agricultura e mesmo aspectos
da tecnologia alimentar moderna podem, todos, ser considerados táticas
para elevar a qualidade da dieta humana. Cozinhar, por um lado, aumenta
a energia disponível em alimentos vegetais selvagens (ver box da pág.
80). Com o advento da agricultura, os humanos começaram a manipular espécies
de plantas marginais, visando maior produtividade, digestibilidade e
conteúdo nutricional - tornando as plantas essencialmente mais próximas
dos alimentos animais. Esse tipo de improviso continua hoje, com a
manipulação genética de espécies para a produção de
"melhores" frutas, vegetais e grãos. Da mesma forma, o
desenvolvimento de suplementos nutricionais, que substituem refeições,
é uma continuação da tendência iniciada por nossos ancestrais: obter
o máximo de retorno nutricional, no menor volume e com o mínimo esforço
físico.
A estratégia evidentemente funcionou: os humanos estão aqui hoje, e em
números recordes. O testamento mais contundente, porém, da importância
de alimentos ricos em energia e nutrientes na evolução humana, talvez
esteja na observação de que tantas preocupações com a saúde, que
atormentam as sociedades em todo o planeta, tenham origem nos desvios da
dinâmica energética estabelecida por nossos ancestrais. Para as crianças
em populações rurais de regiões em desenvolvimento, dietas de baixa
qualidade resultam em crescimento físico deficiente e altas taxas de
mortalidade nos primeiros anos de vida. Nesses casos, os alimentos
oferecidos às crianças após o desmame não são, em geral, nutritivos
e energeticamente fortes o suficiente para suprir as extensas
necessidades associadas a esse período. Apesar de essas crianças, ao
nascerem, apresentarem altura e peso tipicamente similares às de crianças
norte-americanas, por exemplo, são menores e mais leves por volta dos
três anos, assemelhando-se, freqüentemente, aos pequenos 2 ou 3% das
crianças norte-americanas da mesma idade e sexo.
Estamos encarando
o problema oposto no mundo industrial: os registros de obesidade na infância
e na vida adulta estão crescendo, porque nosso desejo por alimentos
ricos em energia - notadamente aqueles que incluem gordura e açúcar -
tornaram-se muito disponíveis e relativamente baratos. Conforme
estimativas recentes, mais da metade dos adultos norte-americanos estão
acima do peso. A obesidade também apareceu em algumas re giões em
desenvolvimento, onde, até há uma geração, era virtualmente
desconhecida. Esse aparente paradoxo surgiu quando pessoas que cresceram
malnutridas se mudaram das áreas rurais para lugares urbanos, onde o
alimento tem disponibilidade imediata. A obesidade e outras doenças
comuns do mundo moderno, de alguma forma, são extensões de um contexto
que começou há milhões de anos. Nós somos vítimas de nosso próprio
sucesso evolutivo, desenvolvendo uma dieta calórica concentrada, mas
minimizando a quantidade de energia de manutenção despendida em
atividade física.
| A
Diversidade das dietas |
A
VARIEDADE DE ESTRATÉGIAS alimentares de sucesso,
empregadas pelas populações que vivem tradicionalmente,
proporcionam uma perspectiva importante no avanço dos debates
sobre como regimes com índices altos de proteína e baixos de
carboidrato, como a dieta de Atkins, comparam-se com os que
destacam carboidratos complexos e restrição à gordura. Não
é surpresa o fato de que esses dois esquemas produzem perda de
massa, porque ambos ajudam as pessoas a diminuir o peso através
do mesmo mecanismo básico: limitando as maiores fontes de
calorias. Quando você cria um déficit de energia - ou seja,
quando você consome menos calorias do que despende -, seu corpo
começa a queimar seus estoques de gordura e você perde peso.
Uma questão maior sobre as dietas saudáveis de manutenção ou
de perda de peso é se elas criam padrões alimentares mantidos
ao longo do tempo. Nesse ponto, parece que as dietas que limitam
em excesso grandes categorias de alimentos (carboidratos, por
exemplo) são muito mais difíceis de serem mantidas que as
dietas que restringem moderadamente. No caso do regime tipo -
Atkins, existe uma preocupação com as potenciais conseqüências,
a longo prazo, da ingestão de alimentos provindos, em sua maior
parte, de animais confinados, com tendência a conter mais
gordura e mais colesterol "ruim".
Em setembro, o National Academy of Science Institute of Medicin
lançou novas diretrizes de dieta e exercício que captam bem as
idéias apresentadas aqui. Não apenas o Instituto estabeleceu
faixas maiores para a quantidade de carboidratos, gorduras e
proteínas condizentes com uma dieta saudável - reconhecendo
que existem várias formas de suprir as necessidades
nutricionais -, como dobrou a quantidade recomendada de
atividade física moderadamente intensa para uma hora por dia.
Ao seguir essas informações e balanceando o que comemos com
exercícios, podemos viver não só de uma forma parecida com os
evenki da Sibéria e outras sociedades tradicionais, como também
com os nossos ancestrais hominídeos. - W. R. L. |
Não foram somente
as mudanças na dieta que difundiram muitos dos nossos problemas de saúde,
mas a interação entre trocas alimentares e mudanças no estilo de
vida. Os problemas de saúde modernos são, com freqüência, retratados
como o resultado da ingestão de alimentos "ruins", que são
desvios da dieta humana natural - uma supersimplificação incorporada
pelo debate atual sobre os méritos relativos de uma dieta superprotéica
e rica em gorduras tipo-Atkins, ou uma alternativa pobre em gorduras,
que enfatiza carboidratos complexos.
Essa é uma visão fundamentalmente equivocada de se enfocar as
necessidades nutricionais humanas. A nossa espécie não está apta a
subsistir com uma dieta única e ideal. O que é singular nos seres
humanos é a extraordinária variedade do que comemos. Fomos capazes de
prosperar em quase todos os ecos- sistemas sobre a Terra, consumindo
desde alimentos de origem animal, entre as populações do Ártico, até,
basicamente, tubérculos e cereais, entre as populações dos Andes. Sem
dúvida, um marco da evolução humana tem sido a diversidade de estratégias
que desenvolvemos para criar dietas adequadas às nossas necessidades, e
a sempre crescente eficiência com que extraímos energia e nutrientes
do ambiente. O desafio que as sociedades enfrentam agora é o
balanceamento entre as calorias que consumimos e as que queimamos
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O
AUTOR
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WILLIAM R. LEONARD
é professor de antropologia na Northwestern University. Ele
nasceu em Jamestown, N. Y. e recebeu seu Ph. D. em antropologia
biológica na University of Michigan, Ann Arbor, em 1987. Autor
de mais de 80 artigos de pesquisa sobre nutrição e energéticos
entre as populações pré-histórias e contemporâneas, Leonard
estudou grupos indígenas agricultores no Equador, Bolívia e
Peru, e populações tradicionais de criadores de rebanhos nas
regiões central e sul da Sibéria.
|
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PARA
CONHECER MAIS
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Evolutionary Perspectives
on Human Nutrition: The Influence of Brain and Body
Size on Diet and Metabolism. William R. Leonard e Marcia L.
Robertson in American Journal of Human Biology, Vol. 6, páginas
77- 88; Janeiro de 1994.
Rethinking the Energetics of Bipedality.
William R. Leonard e Marcia L. Robertson in Current Anthropology,
Vol. 38, páginas 304 - 309;abril de 1997.
Human Biology: An Evolutionary and Biocultural
Approach. Editado por Sara Stinson, Barry Bogin, Rebecca
Huss-Ashmore e Dennis O'Rourke. Wiley-Liss, 2000.
Ecology, Health and Lifestyle Change among the Evenki
Herders of Siberia. William R. Leonard, Victoria A.
Galloway, Evgueni Ivakine, Ludmilla Osipova e Marina
Kazakovtseva in Human Biology of Pastoral Populations. Editado
por William R. Leonard and Michael H. Crawford. Cambridge
University Press, 2002.
An Ecomorphological Model of the Initial Hominid
Dispersal from Africa. Susan C. Antón, William R.
Leonard e Marcia L. Robertson in Journal of Human Evolution (no
prelo).
|
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