Amor e Sacrifício; Até um gato sabe a diferença


Mirko Lerotic Filho


Caju. Um gato tigrado, fofo, imprevisível naquela
oscilação entre carência e indiferença. Uma reunião,
todas as dez pessoas sentadas no chão, entre puffs e
almofadas, virados para o centro. A conversa rolando e
o gato, por onde passa, desperta curiosidade,
admiração, briguinhas pela sua atenção. Lá pelas
tantas, ele sobe no meu colo; eu estava gostosamente
estirado, pescoço apoiado numa almofada na parede.
Aninha-se na minha barriga, e dele vem um calor muito
especial. Delícia.

Conversa fluindo, reunião rolando mais e mais, meu
corpo começa a dar sinais de que aquela posição estava
saturada. Preciso me ajeitar, mas e o
gato? Não. Não posso me mexer, e se ele acordar? Não.
A conversa continua, e meu incômodo cada vez maior. O
gato se mexe. Levanta a cabeça. Cada vez mais inquieto
e eu, mais e mais dolorido. Algumas pessoas tentam
chamar a sua atenção. Preciso agüentar. Não quero que
ele se vá! Mas minhas costas estão me matando!!

Chega! Preciso pensar primeiro em mim! Meu corpo! Com
jeito, fui sinalizando pro gato que iria, sim senhor,
me mexer. Isso talvez represente um terremoto na vida
dele, mas não quero saber. Eu estou disposto a correr
o risco. O gato acaba acordando, logo olhando
atentamente ao que acontece. Segura-se, garras na
minha calça, quando necessário. Finalmente, ao
perceber que eu tinha encontrado uma outra posição,
ele simplesmente se levanta, dá uma gostosa
espreguiçada e... aninha-se. Rapidamente o calorzão
recomeça a fluir entre nós. Uau.

Tempos depois, tive o estalo. Sempre aprendi, ou pelo
menos preferi aprender, de alguma forma, que amor e
sacrifício estavam intimamente ligados. Esse episódio
do gato, como outros tantos, me fazem intuir o óbvio
 que isso é ridículo. Explico e confesso. Já
deixei de proferir palavras que julgava duras,
imaginando que seria abandonado. Não comuniquei
incômodos meus para as pessoas, com medo de
machucá-las. Pelos mesmos motivos, não expressei meus
sentimentos, nem meus desejos, muitas vezes nem para
mim mesmo. Não mudava de posição, me sacrificando, com
medo de perder uma companhia, uma conversa, um
aconchego com um bichinho. Nunca comunicando, tornei,
sempre e seguidas vezes, meu corpo uma pedra. E as
pessoas, os bichos, todos iam, claro, procurar outro
aconchego. Há rochas aos montes por aí.

Penso no ciclo que agora se fecha. Nas libertações.
Nas terapias. Nos prazeres. No amor. Minha esposa,
gostosamente aconchegada ao meu peito. Sinto o aroma
dos seus cabelos, que me cobrem, e me vejo feliz.
Flutuando. Amando. Saturada a posição, simplesmente
inflo meu peito e, com jeito, solto meu corpo, para
que ele procure outra posição. Ela, talvez ainda
dormindo, se afasta um pouquinho; sentindo meu corpo
pousar, aninha-se e, depois de pequenos ajustes,
voltamos a flutuar... Sabe-se lá para onde.

06/05/02 > 09/06/02


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