Carta ao novos
somaterapeutas da Soma-Iê
Parte
Um – Psicologia e Soma-Iê
Inspirado
na carta de Roberto Freire (publicada no livro da Soma nº2) sinto necessário
explicitar a proposta do desenvolvimento das pesquisas de Freire, que este ano
nomeei de Soma-Iê.
Aprendi com Roberto Freire sua pesquisa terapêutica-pedagógica, a Soma, de cliente a companheiro de trabalho; no total, foram 11 anos de relações muito intensas. Devido aos problemas de saúde de Freire e minhas dificuldades financeiras, houve uma quebra na nossa relação. A quebra tem ocorrido aos poucos, tornando-se pública no começo do mês de outubro de 2002. Mais detalhes podem ser vistos na internet, no link:
http://somaterapia.vila.bol.com.br/mediocrebranca.html
Em manifesto produzido no início de 2002, escrevi: “pra continuar brancaleônico, tive de sair do Brancaleone”. Hoje em dia venho percebendo como esta frase foi sinceridade que cada vez mais sinto como verdade.
(http://cultura.tesao.vila.bol.com.br/somaie.html)
Antes de mais nada, gostaria de reforçar o caráter marginal da Soma-Iê, uma marginalidade por opção à medida que as oficialidades cada vez mais se estruturam para manter a miséria e a desigualdade social. Nossa marginalidade nasce das pesquisas científicas da contracultura universal e se fortalecem nos conceitos políticos da teoria anarquista.
Quando fiz somaterapia em 1990, não perguntei ao meu terapeuta sobre sua formação formal; sabia através da palestra e do workshop para a formação do grupo de terapia que Freire se formou em medicina, foi psiquiatra e psicanalista. Soube por ele que abandonou todas essas especialidades por várias divergências pessoais e científicas. Conheci uma somaterapia que sempre incentivou a liberdade e pedagogia libertária, tanto para os clientes como para os terapeutas e suas famílias. Não só eu abandonei um último ano de universidade para entrar na formação, como outros terapeutas e assistentes assim o fizeram. Roberto Freire, na sua maturidade (para diferenciá-lo da sua atitude esse ano), tirou seus filhos do ensino formal e os educou em casa; os que quiseram (por opção própria) cursar universidade fizeram supletivos para ter a oficialidade do diploma.
Essa opção pela marginalidade ao ensino formal não é uma regra, é uma conseqüência da luta para descobrir a vocação (tema que Freire tratou em seu recente e bonito romance juvenil “O Tesão e o sonho”). Quem faz somaterapia recebe um reforço da busca pelo TESÃO. Seja no cotidiano, seja na produção, já que esta faz parte daquele. Dificilmente uma universidade é tesuda, mas pode muito bem chegar a ser, na existência e consciência da certeza profissional e das estratégias para exercê-la na oficialidade da vida burguesa.
Sabemos da história do ensino formal, e como ela serve como um processo de deformação e acomodação social. No livro “Pedagogia Libertária” de 1996, Roberto Freire cita as pesquisas de José Maria Carvalho Ferreira, respeitado anarquista português, ao se referir ao ensino formal: “Essa pedagogia potencializava relações hierárquicas de dominação do professor sobre alunos no processo de aprendizagem de conhecimentos. Assim veio até hoje a pedagogia autoritária refletindo a organização e o funcionamento dos Estados capitalistas e formando cidadãos a ela adequados.”
Uma frase de Gregory Bateson, descobridor do duplo-vínculo e um dos pesquisadores fundamentais ao trabalho da somaterapia, datada de 1978 mas atualíssima, a meu ver, enuncia: “Enquanto muito do que as universidades ensinam hoje é novo e atualizado, a pressuposição ou as premissas de pensamento nas quais todo nosso ensino está baseado são arcaicas, e afirmo, OBSOLETAS.” (grifo do próprio autor)
No início deste ano, Roberto Freire, em conversa informal, disse-me que tem incentivado os terapeutas a completarem cursos acadêmicos. Como já coloquei, não sou contra o curso superior em si, desde que utilizado, com muita crítica, como uma estratégia específica. Lembro outra frase que Freire divulgava de 6 a 3 anos atrás: “As universidades norte-americanas já provaram: os universitários saem com menor QI do que quando entraram nelas”. Quanto ao rótulo “ensino superior”, procuro sempre colocar “DITO superior” – a única superioridade que este ensino faz é uma elitização entre as pessoas, pois de cada 100 pessoas no planeta, só 1 chega à Faculdade, e mesmo assim, em alguns momentos até a oficialidade dispensa o curso superior, como evidenciado na crítica do Serra ao Lula durante a campanha presidencial, que acabou queimando ele próprio; até o presidente FHC teve de ir à imprensa relativizar os diplomas, e afinal, nem o presidente eleito tem um curso superior...
Alguém que queira fazer formação para ‘Somaterapeuta de Soma-Iê’ tem de passar por uma criteriosa auto-avaliação: que desejo ser, que desejo produzir e como vou aprender. Assim, num processo pedagógico libertário, reafirmo, podemos usar as universidades. Usando-as, poderemos ter contato com a mediocridade do ensino massificado e suas grades curriculares ultrapassadas, mas em contrapartida adquire-se os diplomas que, para a cultura de massa, significam conhecimento. Aquele que optar por essa estratégia libertária nunca valorizará o diploma em detrimento do conhecimento prático. Isto é, o diploma não significa conhecimento, simplesmente significa que se submeteu àquela faculdade. Aqueles que valorizam o diploma, além dos ‘zés-ninguéns’, são aqueles que têm diplomas: pois, nesse pacto de mediocridade, você-valoriza-meu-diploma-que-eu-valorizo-o-seu. Quando se reúnem os diplomados, criam-se instituições para a valorização dos diplomados, e só são aceitos na instituição aquele que vier a ter diploma. Assim a grande maioria das instituições valorizam mais os diplomas que o conhecimento.
Para reforço das nossas teses libertárias, na Espanha existe uma escola anarquista onde não se tem acesso a um diploma, isto é, o governo espanhol não a reconhece; mesmo assim ela existe, pois os pais preferem que seus filhos tenham uma educação em liberdade e depois façam supletivos para pegar diplomas e continuar o ensino formal do que, desde crianças, entrem nos estupros da pedagogia autoritária. Sem falar da clássica Summerhill na Inglaterra, sempre alvo de pessoas que tentam fechá-la, mas até hoje em atividade...
Assim, um futuro somaterapeuta da soma-iê poderia ser formado em qualquer faculdade ou estar se formando em praticamente todos os cursos. Coloco um “quase” pois, se você quer ser médico e deseja ter garantias sociais e políticas para exercer sua vocação, serei o primeiro a defender que você estude muito para passar numa universidade pública e cursar medicina. Agora, caso você deseje cursar psicologia, teremos uma situação curiosa.
Aprendi com a Soma que psicologia é política e política é psicologia. Acompanhei nesses últimos anos pessoas que faziam psicologia e desejaram fazer formação em Soma e até um somaterapeuta que resolveu, depois de formado em Soma, fazer psicologia. E garanto a existência de uma incompatibilidade. Não coloco isso como um impedimento, mas como uma informação para você experimentar. Mas seguindo o que mais acredito: é você quem decide. A respeito disso, lembro-me agora da resposta do seu Zé Ernesto, em Visconde de Mauá, ao ser perguntado se uma pessoa poderia fazer uma caminhada pela mata de chinelo ou descalço: “Claro que pode.... o pé é seu”
Assim, para aquele que quiser fazer soma-iê e psicologia, a minha resposta: “claro que pode... o tempo é seu”.
Mas afirmo que é perda de tempo. Ou você abandona o curso de psicologia para dedicar sua vida a uma política de ação direta e se garante pelo seu conhecimento, ou você respalda a psicologia e se afasta da política libertária e procura defender seu diploma... A respeito disso, observei isso pessoalmente em assistentes e observo em um terapeuta.
O zé-ninguém vai perguntar qual instituição te formou, se você tem respaldo do diploma pois esse é quem garante que você sabe. Como somaterapeuta da soma-iê, fazer um curso de psicologia não é ser respaldado por uma faculdade, é respaldar a faculdade, é dizer que ela serve de alguma coisa pra mim (pois se não servisse eu não estaria ali, e já coloquei que ela só serve para dar um diploma, e para quem esse diploma serve?). Assim eu, Rui Takeguma, não posso respaldar nenhuma faculdade de psicologia, senão eu estaria comprometendo a história-ética-ciência da Soma-Iê. Inclusive aponto a existência de faculdades onde aquele que paga, mesmo sendo analfabeto, passa no vestibular... E aquele que continua pagando acaba pegando o diploma...
Se alguém argumenta comigo que dentro da faculdade terei acesso a conhecimentos que podem assim ser melhor criticados, responderia que esse conhecimento não está ‘dentro’ da faculdade e sim nos livros e nas pessoas. Assim, para criticar algo que se ensina na faculdade, basta acessar as grades curriculares e ir atrás das bibliotecas. O que eu ‘perco’ não fazendo a faculdade é a rigidez do ensino, nos horários, provas, chamadas, recreio, etc. E isso é o que eu quero perder, pois só servem para incentivar uma disciplina autoritária em detrimento da disciplina libertária, da auto-educação ou autodidatismo.
Assim, como seu formador da Soma-Iê, ME ORGULHO de não ter diploma, e quero ajudá-lo a descobrir que você pode ser um ótimo terapeuta sem passar por uma faculdade de psicologia, e desconfio que você só será um ótimo terapeuta se não passar pela faculdade de psicologia. Se você passar e depois vier a fazer soma-iê, talvez você lute por uma anti-psicologia, como os psiquiatras renomados (e o próprio Freire) optaram posteriormente pela anti-psiquiatria. Assim, afirmo: ser um somaterapeuta de soma-iê é ser um anti-psicólogo, para quem já tiver o diploma. A esse respeito, antigamente no Brancaleone, na época em que eu participava, sempre que alguém fazia psicologia e dizia querer fazer formação, brincávamos: “então sua formação vai demorar não 3 ou 4 anos, e sim 4 ou 5; pois vai levar mais de ano para desaprender tudo de errado que te ensinam/ensinaram”. Na Soma-Iê, esta brincadeira não faz parte do passado. Acredito que o Brancaleone de hoje inverteu a brincadeira, pois o próprio Roberto Freire incentiva a formação universitária...
Você que deseja se tornar um Somaterapeuta da Soma-Iê, não terá outro
respaldo que não seja sua própria competência em manter grupos e produzir a
terapia, pois esse apoio, no fundo, é produzido pelos próprios clientes. Nossa
função é puramente de catalisar e repassar o que aprendemos com a técnica e,
principalmente, viver um cotidiano ético em relação à proposta da Soma-Iê:
liberdade, sinceridade e tesão no cotidiano.
Acredito que sem esses três elementos na vida do terapeuta a técnica vai por água abaixo. A soma é como a capoeira angola, interessa a prática e o aqui-agora, e não somente o passado (diploma) e teorias.
Acredito que a opção atual de Freire, a defesa da oficialidade do ensino formal, poderia até ser uma estratégia para a Soma que ele desenvolveu heroicamente nestes últimos 30 anos. Entretanto, pelo o que observei nos últimos dois anos de afastamento do Brancaleone, o que poderia ser estratégia nas mãos de Freire será a morte da Soma nas mãos do Brancaleone. Como tenho escrito nos últimos artigos, é o tempo quem vai dizer. E quando falo morte da Soma, não digo o fim da Soma, como outros terapeutas que nos últimos anos se afastaram de Freire, e sim, fim da Soma enquanto ética e práticas anarquistas. O que vejo acontecendo é a manutenção de um discurso libertário numa prática de jogo, picuinhas, mentiras e autoritarismo. Vejo essa prática com relação à minha pessoa, ex-companheiro que não suportam ver em atuação como somaterapeuta fora de seu coletivo – à maneira das leis do mercado produzem competição e jogos, e à maneira de Stalin, tentam apagar a história... Como não percebi auto-crítica neste coletivo e cada vez mais eles mantêm e se afundam nas mentiras e na ética de discurso diferente da prática, chegará o momento em que seus próprios clientes denunciarão isto. E talvez essa Soma medíocre finalmente se institucionalize e cresça, um crescimento provável e massificado. Talvez se institucionalize e defendam os diplomas para somaterapeutas, até criarem sua própria instituição, com seus próprios diplomas. Assim, você que quer formação em SOMATERAPIA, pode decidir desde já qual caminho deseja...
E como um ‘antigo’ Caetano Veloso (pois o Caetano atual também mudou de ideologia), eu prefiro um PORTO ALEGRE que um PORTO SEGURO. Caso você prefira a segurança, vá fazer formação com o Brancaleone.
Senti a necessidade de escrever esta carta num momento que começo a implantar a Soma-Iê pelo Brasil, em 2002, começando a experiência em SP, mas os assistentes que estavam comigo se afastaram. Como pretendo iniciar novos grupos de Soma-Iê pelo Brasil, essa explicitação entre formação da soma-iê versus formação acadêmica em psicologia precisava ser explicitada. Outros dois pontos fundamentais são a relação com os ambientes da capoeira angola e do anarquismo, que irei aprofundar na parte dois desta carta.
Estes dois ambientes serão tratados em artigos publicados no CD-Rom/Livro que estou escrevendo e estará pronto ainda este ano. Espero com esta publicação encerrar os conflitos SOMA versus SOMA-IÊ, mostrando que nossos caminhos são diferentes. Que nossas pesquisas possam gerar frutos, e esses frutos é que serão nossos filhos, eles terão seu caminho a seguir. Esta carta segue inspirada na carta de Freire, que devido à sua veia literária é mais bonita e completa que esta. Aqui procuro pontuar só o que esta nos afastando e mostrando pesquisas possíveis dentro da cultura somática.
Convido você, futuro assistente de Soma-Iê, a entrar nessa viagem, buscando os portos alegres da formação – repito a frase final do livro que ajuda a definir a Soma-Iê como uma evolução da CULTURA SOMÁTICA (“Corpos em revolta” de Thomas Hanna):
“Assim, na verdade, não há nada perfeito. E é por isso que a coisa é tão divertida”
fim da parte um (psicologia)
Criador da Soma-Iê
Espaço Cultural Tesão
www.somaterapia.com - em breve
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